quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Setor público vira refúgio de profissionais qualificados


BSPF     -     23/11/2016




No ano passado, entre 673 setores econômicos, a administração pública foi a que mais gerou vagas para brasileiros com diploma universitário: um total de 68.625

Em busca de estabilidade e salários melhores, boa parte dos trabalhadores com ensino superior tem optado pelo emprego no setor público.

Com a recessão, que vem produzindo um forte aumento do contingente de desempregados, essa atratividade aumentou ainda mais.

No ano passado, entre 673 setores econômicos, a administração pública foi a que mais gerou vagas para brasileiros com diploma universitário: um total de 68.625.

Em 2014, o segmento empregava 37,4% dos trabalhadores com nível superior. No ano passado, essa fatia atingiu 38%, o maior avanço relativo entre todos os setores.

Embora tenha contribuído para frear o desemprego de profissionais qualificados, nem todas as vagas do setor público são condizentes com a formação do candidato.

Reportagem da Folha publicada no domingo (20), com base na Rais (relatório anual sobre o mercado de trabalho formal), mostra que milhares de brasileiros com ensino superior têm aceitado empregos de menor qualificação para conseguir uma vaga. A tendência também se aplica às posições que profissionais buscam no setor público.

Cargos que exigem ensino médio -como professor em início de carreira na educação infantil, agente de segurança penitenciária e auxiliar de judiciário- estão entre os que mais geraram emprego para profissionais com diploma.

Pesquisador do Insper, Sérgio Firpo afirma que, no longo prazo, o setor público no Brasil deforma o mercado de trabalho: incentiva que talentos busquem a estabilidade em vez de correr riscos no setor privado, provocando uma ineficiência da economia.

O setor público faz um verdadeiro brain drain [fuga de cérebros] no mercado de trabalho. Isso faz com que um engenheiro bem formado, em vez de fazer pontes, por exemplo, esteja carimbando papéis numa repartição ou Tribunal de Contas.

SEM ALTERNATIVA

Formada em arquitetura, com pós-graduação na FGV, a carioca Jéssica Bruno, 31, passou a estudar para concursos depois que perdeu o emprego em um escritório. O que me levou a fazer concursos é a falta de emprego.

Como muitos profissionais do Rio, Jéssica trabalhou numa empresa ligada ao setor do petróleo, mercado que murchou com a crise da Petrobras. Depois que saiu de lá, tentou oportunidade no escritório de arquitetura, mas se queixa do clima negativo no mercado.

Todos os meus amigos ou foram mandados embora ou estão com medo de perder o emprego. Decidi que não quero mais ficar nessa tensão , diz. Além disso, o salário oferecido nos concursos é mais do que estão pagando para arquitetos [no setor privado].

Jéssica decidiu concorrer a vagas que exigem apenas o ensino médio e agora tenta entrar no serviço público como técnica do Judiciário. Eles oferecem mais vagas, e a prova é mais fácil. No último concurso que tentei [para o Ministério Público], havia uma vaga de arquiteto e 17 para técnicos.

FREIO NA TAXA

Em temporada de desemprego, como agora, Firpo calcula que a desocupação entre os profissionais com ensino superior estaria bem mais elevada não fosse o contingente que aderiu ao serviço público. A taxa de desemprego para essa camada da população, hoje ao redor de 6%, saltaria para 8% se fossem retirados da conta os servidores públicos.

Desde 2012, a participação do funcionalismo no total de ocupados nunca esteve tão elevada quanto no segundo trimestre de 2016. Possivelmente resultado da redução do emprego no setor privado.

Ele observa que o nível educacional subiu em toda a força de trabalho. Mas, entre os servidores públicos, o aumento é mais expressivo. Mais da metade dos estatutários e militares tem ensino superior. No resto do mercado, o percentual não chega a 15%. As pessoas que estudaram menos recebem menos e estão mais expostas ao desemprego , afirma Firpo. Com informações da Folhapress

Fonte: Folha do Estado


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