Vera Batista
Correio Braziliense
- 10/06/2015
Funcionários de carreiras típicas de Estado decidem não
aceitar reajuste menor que o estabelecido na campanha de 2015
Os servidores públicos de elite não querem sequer considerar
a possibilidade de reajuste abaixo dos 27,3% reivindicado na campanha salarial
de 2015. Ontem, em reunião do Fórum Nacional Permanente das Carreiras Típicas
de Estado (Fonacate), que representa mais de 180 mil trabalhadores (26
sindicatos) com alto nível de especialização, os representantes sindicais
subiram o tom. Eles alegam que já abriram mão do restabelecimento total dos
ganhos mensais, pois se cobrassem a queda no poder aquisitivo desde 2000, o
percentual não poderia ser inferior a 50%. Por isso, preparam uma artilharia
pesada que inclui manifestações, atos de protesto, paralisações e até greve
geral.
"Nossa demanda é de 27,3%. Não há outro cenário. Menos
que isso, é greve", disparou Daro Piffer, presidente do Sindicato Nacional
dos Funcionários do Banco Central (Sinal). A categoria fará hoje paralisação de
quatro horas, a partir das 9h. "Se a presidente e os ministros desistirem
do aumento de 15,76%, também abandonaremos a ideia dos 27,3%",
complementou Márcio Gimene, presidente da Associação Nacional dos Servidores da
Carreira de Planejamento e Orçamento (Assecor).
"Salário de servidor não é gasto, é investimento.
Desempenhamos papel crucial para a gestão pública", destacou Sávio
Silveira Feitosa, presidente do Sindicato Nacional dos Peritos Federais
Agrários (SindPFA). Roberto Kupski, presidente do Fonacate, explicou que, além
das defasagens salariais, outros itens não avançam. "As indenizações de
transportes (para quem usa o próprio veículo) estão congeladas desde 1999 em R$
17 por dia. As diárias estão em R$ 200,
em média, desde 2009."
Rudinei Marques, secretário-geral do Fórum, lembrou que ali
estava presente o núcleo estratégico do governo. "Olhando os grandes
números, é fácil deduzir que orçamento é uma escolha. Sem os empréstimos do
BNDES a grandes empresas com juros subsidiados que, desde 2008, chegam a quase
R$ 500 bilhões, sobraria dinheiro. Se fosse aprovada a taxação de grandes
fortunas, o retorno seria de mais de R$ 100 bilhões, quase duas vezes as
despesas com os 27,3%. Há mais de 10 mil funcionários requisitados com salários
astronômicos que poderiam ser substituídos por servidores. São pequenos
exemplos de onde o dinheiro pode vir", disse Marques.
Pressão
O grupo de servidores que se encontrou ontem atua nas áreas
de arrecadação, fiscalização, controle, segurança, planejamento e orçamento.
Juntos, podem movimentar ou paralisar a gestão pública. O principal objetivo
foi aglutinar movimentos isolados que
começaram a pipocar pelo Brasil desde março, quando o ministro do Planejamento,
Nelson Barbosa, declarou que os 27,3% são "irreais". Nesse período,
mais de 1,3 mil procuradores federais e advogados da União entregaram cargos de
chefia. Hoje, farão ato em frente à AGU, às 11h.
Analistas e técnicos em finanças se reuniram, ontem, em
frente à CGU e hoje protestam, às 10h, no hall de entrada do Ministério da
Fazenda. Os auditores da Receita Federal planejam uma entrega generalizada de
cargos de chefia. Fizeram, ontem, mais um Dia Nacional sem Computador, terceiro
protesto nacional contra a desvalorização da categoria. Também ontem,
servidores do Judiciário e do Ministério Público da União (MPU) entraram em
greve por tempo indeterminado.