Reajuste salarial de 16% apenas recompõe perdas inflacionárias, dizem ministros do STF


G1     -     08/11/2018




Nesta quarta (7), Senado aprovou aumentar vencimentos dos magistrados do STF de R$ 33,7 mil para R$ 39,3 mil. Antes de entrar em vigor, proposta precisa ser sancionada por Michel Temer.

Brasília - Os ministros Marco Aurélio Mello e Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmaram nesta quinta-feira (8) que o reajuste de 16,38% nos salários dos integrantes da Corte –aprovado na véspera pelo Senado – representa apenas uma recomposição de perdas inflacionárias, e não um aumento salarial.

Os senadores aprovaram nesta quarta-feira (7) projeto que reajusta de R$ 33,7 mil para mais de R$ 39 mil os subsídios dos ministros do STF. Como os salários dos magistrados da Suprema Corte são o teto do funcionalismo, o aumento irá provocar um efeito dominó nos contracheques da magistratura.

O “efeito cascata” se dá porque os vencimentos do Supremo, segundo a Constituição, servem de teto para o funcionalismo público de todas as esferas. Muitos servidores de Executivo, Legislativo e Judiciário estaduais sofrem um corte no salário por causa dessa regra, o chamado "abate-teto".

Com o aumento dos vencimentos aprovado pelo Congresso, os funcionários públicos que ganham mais do que um ministro do STF (em razão do acúmulo de benefícios, por exemplo) passariam a ter um corte menor. A estimativa é de que o aumento salarial gere, pelo menos, R$ 4 bilhões de despesas extras nas contas públicas.

O presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli, defendeu o reajuste na manhã desta quinta durante encontro com presidente de tribunais de Justiça. Na avaliação de Toffoli, o aumento salarial aprovado pelos congressistas é uma recomposição "justa e correta" das perdas inflacionárias do período entre 2009 e 2014.

O presidente do STF pretende acelerar o julgamento que analisará a legalidade do auxílio-moradia pago aos magistrados. A eventual extinção do benefício é uma das alternativas para reduzir o impacto do reajuste aprovado pelo Congresso.

Ao chegar para a sessão desta quinta, o ministro Marco Aurélio Mello defendeu o aumento. "É uma reposição do poder aquisitivo considerado o período entre 2009 e 2014. E era para estar aprovado desde 2016", ponderou o magistrado.

Marco Aurélio concordou que é hora de tratar do auxílio-moradia e afirmou que o benefício, garantido a todos os magistrados em razão de uma liminar do ministro Luiz Fux, não está previsto em lei.

"Eu, por exemplo, sustentarei que há de estar previsto em lei. O administrador público só pode fazer o que está autorizado em lei. O particular não pode fazer tudo, desde que não esteja proibido", enfatizou.

Ele destacou ainda que a lei orgânica da magistratura menciona o auxílio, mas prevê que seja regulamentado, o que não aconteceu neste caso.

Questionado sobre se esse seria o momento adequado para reajustar os vencimentos dos magistrados da Suprema Corte, na medida em que o país está com mais de 10 milhões de desempregados, Marco Aurélio ironizou a ministra Cármen Lúcia.

"Eu admiro o voto de pobreza da ministra Cármen Lúcia", referindo-se ao fato de que a magistrada se manifestou contra o aumento por conta do momento econômico do país.

O general Augusto Heleno, que vai chefiar o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no governo Bolsonaro, disse que a aprovação do reajuste traz "preocupação", mas negou que seja considerada uma "derrota" pelo futuro governo.

“Não é derrota. É preocupação. Não considera, tenho certeza que ele [Bolsonaro] não considera derrota. É uma preocupação até pelos gastos que foram anunciados. Mas isso tem que ser muito bem estudado, não dá para fazer essa avaliação aqui. Isso aí ele tem que avaliar, principalmente o doutor Paulo Guedes, para verificar qual impacto”, afirmou.

Nesta quarta (7), indagado sobre a possível votação do reajuste pelo Senado, Bolsonaro respondeu que não seria o momento adequado para aprovar medidas que representassem aumento de gastos.

"Acho que estamos numa que fase todo mundo tem ou ninguém tem. Sabemos que o Judiciário é o mais bem aquinhoado entre os poderes, a gente vê com preocupação... Obviamente que não é o momento (de aumentar gastos)", disse o presidente eleito.

Discussões no Supremo

Em 2015, o então presidente do Supremo, Ricardo Lewandowski, enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei com a proposta de aumento de 16,38%, que foi aprovada na Câmara em 2016 e, desde então, estava parada. Durante a gestão de Cármen Lucia à frente da Corte (entre setembro de 2016 e setembro de 2018), ela foi contra incluir o reajuste no Orçamento em razão da crise fiscal.

Em sessão administrativa em agosto deste ano, a maioria dos integrantes do tribunal (7 votos a 4) decidiu incluir a proposta de aumento salarial no Orçamento de 2019, estipulando uma fonte de recursos para que o Senado aprovasse o reajuste. Votaram contra o aumento, além de Cármen Lucia, os ministros Celso De Mello, Rosa Weber e Edson Fachin.

Ao chegar ao STF nesta quinta, Lewandowski também saiu em defesa do reajuste aprovado pelo Senado.

"O Senado é que decidiu. Nós temos uma defasagem, e ela cobre uma parte dessa desafasagem dos vencimentos dos juízes em relação à inflação", opinou Lewandowski.

O ministro do Supremo não quis comentar a possibilidade de o próprio tribunal extinguir o auxílio-moradia da magistratura.

Derrotada na votação que autorizou incluir o pedido de reajuste salarial na proposta de orçamento do ano que vem, Rosa Weber evitou comentar a decisão do Senado ao ser questionada nesta quinta por jornalistas.

“Acho que, nessas questões institucionais, quem fala pelo tribunal é o presidente", limitou-se a dizer a magistrada.

Já Celso de Mello lembrou que foi contra o aumento: "Eu fui voto vencido no plenário administrativo do Supremo. Fui contra."

Por Mariana Oliveira e Rosanne D'Agostino


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