G1 - 20/01/2016
Por causa da crise, governos e prefeituras ampliaram prazos
e limites de pagamento. Mas a vantagem pode virar uma armadilha financeira.
Por causa da crise, governos e prefeituras esticaram os
prazos e os limites de pagamento de empréstimos consignados. É uma tentativa de
socorrer servidores públicos endividados. Mas economistas alertam para o risco
de uma armadilha financeira no orçamento doméstico.
Setenta e seis anos, aposentado e endividado. Há três anos,
Edilton Ferreira Lima viu as dívidas aumentarem porque a aposentadoria não
estava mais dando para pagar as contas. Aí, ele teve que recorrer a um
empréstimo com desconto em folha.“Não havia outra alternativa”, diz. E não foi o único. Hoje, ele tem dois
empréstimos e alguns anos pela frente de prestações a pagar
Bom Dia Brasil: Falta muito?
Edilton: Não penso e nem quero pensar.
Os juros do empréstimo consignado são mais baixos porque o
banco desconta diretamente do salário, ou seja, não existe risco de calote. Mas
não dá para abusar.
Edilton sabe disso. Só que com a aposentadoria de R$ 1,4
mil, ele não teve escolha. "Ninguém pega um empréstimo sem haver uma
necessidade, é sempre para pagar dívidas, muito pouco para proveito próprio”,
diz ele.
Com o orçamento apertado, a proposta do gerente do banco
pode ser tentadora. “Aí ele diz, ‘olha, vamos fazer uma coisa bonitinha, você
fica só pagando R$ 50 durante 200 anos’, é força de expressão”, brinca Edilton.
É, não chega a 200 anos. Mas com a inflação mordendo o poder
de compra do brasileiro, servidores públicos passaram a receber prazos mais
elásticos para quitação dos empréstimos. E limites maiores.
Foi o caso da prefeitura do Rio, que este mês aumentou o
prazo de seis para dez anos. E autorizou o servidor a comprometer até 40% do
salário com as parcelas. Aproximadamente quatro em cada dez funcionários da
prefeitura do Rio já recebem o contracheque com desconto de pelo menos um
empréstimo.
Em São Paulo, o governo também ampliou o prazo. De cinco
para oito anos para os servidores estaduais. E elevou o limite de 30% para 40%
da renda.
Os servidores federais também têm até oito anos para saldar
a dívida. E desde outubro do ano passado, o limite passou de 30% para 35%
Para os aposentados, o prazo de pagamento é de, no máximo,
seis anos. Os funcionários públicos estão optando por empréstimos a perder de
vista. De acordo com um levantamento do Banco Central, o tempo médio de
quitação em novembro de 2015 foi o maior no período de 14 meses.
O problema é que quanto mais se estica o empréstimo, mais
alta fica a dívida. “É bom pedir antes ao banco a simulação e olhar a soma de
juros que você vai pagar, então uma forma de não cair na armadilha é olhar essa
soma de juros porque ela assusta”, aconselha a economista Myrian Lund, da
Fundação Getúlio Vargas.
Em dez anos, você pode pagar só de juros três vezes mais do
que tomou emprestado. E aí vai o conselho da planejadora financeira: fuja de
empréstimos muito longos. “Para que isso não afete o seu padrão de vida. Senão,
você vai ter que abrir mão de despesas que você hoje tem, como lazer, viagens,
restaurantes, você vai ter que abrir mão disso tudo para poder pagar essa
prestação”, explica Myrian Lund.