Ana D"Angelo
Correio Braziliense - 27/12/2011
A gaúcha Rosangela Silveira de Oliveira, de 53 anos, adjunta
do advogado-geral da União, trabalha, em geral, 12 horas por dia. E o batente
termina normalmente por volta das 22h. Seu corpo acostumou-se a dormir pouco –
o sono é de cinco a seis horas apenas. Isso vem desde a juventude, quando já
acumulava três jornadas: aulas de química e matemática para alunos da oitava
série, o trabalho no antigo Inamps e a faculdade.
Procuradora da Fazenda Nacional de carreira, Rosangela
ocupa, na AGU, o cargo de DAS-6 (Direção e Assessoramento Superior), o mais
alto para funções comissionadas, preenchidas, na maioria dos casos, por meio de
indicações. É quase uma exceção. No total, somente 53 mulheres estão nesses
cargos de chefia no Executivo - a maioria dos postos está nas mãos de homens:
75,6%.
O grosso das funcionárias com vagas comissionadas se
concentra nos níveis mais baixos da hierarquia - DAS-l e DAS-2 -, um retrato
nada edificante em um país que, pela primeira vez, está sendo comandado por uma
mulher, a presidente Dilma Rousseff.
Quando se olha, porém, para o conjunto do serviço público, o
quadro é mais ameno. Não sem motivo: a quase totalidade dos postos é preenchida
por meio de concurso público. Por terem mais anos de estudos e serem mais
dedicadas, mesmo, em muitos casos, tendo jornada dupla se trabalho, as mulheres
vem diminuindo a distância salarial em relação aos homens e ocupando mais vagas
de chefia.
As servidoras já detêm 42% dos postos mais altos da
Esplanada dos Ministérios e recebem, em média, 11% menos do que os homens. Na
média geral de todas as profissões do país, a distância do rendimento é 30% e
são poucas as que estão no comando de equipes. Dados do Ministério do
Planejamento indicam que, ano a ano, o salário das servidoras vêm se
aproximando do pago aos homens, tanto que, em 2000, a distância entre eles era
de 16%. A funcionária pública custa hoje, em média, R$ 8.309 por mês, e o
servidor, R$ 9.341.
Esforço
Nascida numa família de cinco irmãos - pai motorista e mãe
dona de casa - , Rosangela apostou seu futuro numa jornada pesada, envolvendo
estudo e trabalho ao mesmo tempo, além de ajudar a mãe nos afazeres domésticos
e nos cuidadas dos irmãos menores. Aprendeu a cozinhar com 10 anos. O primeiro
vestibular foi feito aos 17 anos, para química, na Pontifícia Universidade
Católica (PUC/RS), com a mãe, que havia conseguido terminar o segundo grau
fazendo supletivo.
No segundo semestre de curso, já dava aulas de química e de
matemática para a turma do último ano do ensino fundamental (antiga oitava
série). No colégio, ocupou vários cargos, até a vice-diretoria. Um ano depois,
passou em concurso público para auxiliar operacional do antigo Inamps (hoje
INSS). Nessa época, resolveu trocar o curso de química pelo de pedagogia na
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, para se aprimorar no ofício de dar
aulas.
Sua jornada aos 21 anos era das 7h30 as 9h30 dando aulas;
das 10h às 18h no Inamps e, a partir das 19h, na faculdade. Os finais de
semana, passava corrigindo provas. "Não sei como conseguia dar
conta." Fez outro concurso público para agente administrativo do Inamps e
chegou a atuar como substituta da chefe do posto. Antes de terminar o curso de
pedagogia, resolveu mudar de área e prestou vestibular para direito na PUC-RS.
A rotina pesada de trabalhar, dar aulas e estudar continuou até seus 31 anos,
quando se formou advogada.
Sem férias
Em 1992, foi aprovada em 16° lugar, entre os candidatos do
estado, no concurso de procurador da Fazenda Nacional. Na função, ocupou vários
cargos, até o atual, de adjunta do advogado-geral da União, Luis Inácio Adams.
Hoje, ela é responsável pela gestão da advocacia pública, pelo gerenciamento da
estrutura física e humana das carreiras jurídicas, que envolvem 15 mil
advogados, procuradores federais, procuradores da Fazenda Nacional e defensores
públicos, para que haja mais resultados efetivos para a sociedade. Um de seus
desafios atuais e reduzir a judicialização das demandas no âmbito federal, que
exigem sempre mais recursos humanos e materiais para dar conta de infinitas
ações.
Rosangela raramente tira férias. As últimas foram há quatro
anos. No Maximo, viaja no fim de semana de Brasília para Porto Alegre.
"Não acho que trabalhe demais", comenta. Solteira, investe seu
dinheiro na família. Já deu uma casa para a mãe e apartamentos para duas irmãs,
além de carros para sobrinhos. Garante que sua vida não é só trabalho.
"Janto fora, vou a barzinhos", conta
Respeito
A nove quilômetros dali, uma mulher tem em mãos um dos
maiores desafios do atual governo: efetivar a criação de uma autarquia, em
regime especial, que ficará responsável pela realização das Olimpíadas de 2016,
no Rio de Janeiro - a Autoridade Pública Olímpica (APO). Formada em
administração, a servidora pública de carreira Magda Oliveira de Myron, 51
anos, foi escolhida par Márcio Fortes, ex-ministro das Cidades e presidente da
APO, para ser a superintendente de gestão corporativa do órgão.
Cabe a ela colocar em funcionamento o consórcio, que reúne a
União, o estado e o município do Rio do Rio de Janeiro, para coordenar as ações
públicas de planejamento e entrega das obras para a realização dos jogos. O
regime de trabalho é acelerado, sem hora para terminar, o que, para Magda, não
é novidade. Durante anos a fio ela chefiu secretarias de orçamento na
Esplanada, com jornadas de até 15 horas.
Por suas mãos, foram liberados milhões de reais em impostos
para tocar obras públicas. Em um país em que os malfeitos se tornaram rotina,
ela brecou muitos projetos que permitiriam boa parte do meu, do seu, do nosso
suado dinheiro escorrer pelo ralo. "Não se brinca com dinheiro do povo.
Ele merece respeito", afirma
Neste momento, a equipe comandada por Magda está despachando
no Centro Cultural Banco do Brasil, mas no ano que vem, todos serão
transferidos para o Rio. "Estamos criando uma estrutura nova, sem
paradigma, com visibilidade internacional, pois os Jogos Olímpicos são maiores
que a própria Copa do Mundo", conta, entusiasmada. Com as chaves dos
cofres nas mãos, ela garante que tudo será feito como manda a lei. "É o
mínimo que esperam de nós".
Distorções
O Distrito Federal é a quinta unidade da federação com maior
número de servidoras públicas federais: 45,8%. Ainda assim, os homens são
maioria por aqui. O maior índice da presença feminina, 58,4%; está em Roraima,
seguido do Amapá. Nesses estados, os servidores do sexo masculino são menos da
metade. No Rio de Janeiro, elas estão quase empatadas com o sexo oposto. Na
média, a região Sudeste é a que concentra mais mulheres servidoras, mas ainda
com uma participação abaixo dos 50%.